viagem no nada

Jozailto LimaBy Jozailto Lima 1 ano agoNo Comments
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meu coração de vidro

e eternidade me atira

num despenhadeiro abissal:

presta a atenção na areia,

perscruta e extrai dela o silício

do ser que viaja contigo a trilhões

de pulsos, compassos e dissolvências.

 

e eu, de tão alheio ao chão,

de tão trepado em outros saltos,2016 - 1

de toda a arenosa flora separado

a pedra, laje, asfalto, e a distâncias

nada porosas nem primevas,

[eu velho em meu próprio centro]

pouso o ouvido sobre mim,

ouço tudo e não escuto nada.

 

nem o suspirado eco do primeiro barro.

 

e do alto dos meus galhos

sem frutos me espanto:

onde os vestígios

do homem que fui,

do homem que sou,

e do homem que serei?

 

meu coração de vidro é trágico.

feito de memória lenta e descampados.

e se quebra em silêncios de silícios mudos.

em ecos de nada.

 

na floresta de árvores mortas e soterradas da carne,

meu coração de vidro, sangue de anilina,

não compulsa nem o mais próximo dos trisavôs.

mas, insano, tenta infundir em mim a ilusão

de que um poema pode amar.

 

meu coração de vidro, ora faça-me o favor de se calar.

 

 

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Jozailto Lima

Jozailto Lima é baiano radicado em Aracaju, Sergipe. Lançou pela Editora Patuá o livro de poemas “Ainda os lobos” (2016), Também são na sua lavra “A Flor de Bronze e Outros Poemas de Mediamor” (1986), “Plenespanto” (1996), “Retrato Diverso” (2004), e “Viagem na Argila” (2012). Os três primeiros, premiados na Bahia e em Sergipe.