Trinta coisas que esqueci sobre mim mesmo

Roberto LimaBy Roberto 3 anos agoNo Comments
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Narciso

 

Meu pai não queria que eu vivesse de escrevinhações. Fez de tudo para que eu fosse militar, como ele. Na contra-mão mão de sua vontade, minha mãe presenteou-me com uma Olivetti portátil, que ela pagou em 12 “suadas” prestações na falecida Mesbla.

 

 

(Para Suzana Guimarães, precursora da lista das 30 coisas)

A poeta baiana Tânia Contreiras lançou-me o desafio para que entrasse em uma espécia de corrente inicada nas redes sociais e enumerasse 30 coisas a meu respeito.
Eu jamais diria não a ela, que é uma pessoa muito presente em minha vida, amiga ímpar, a quem eu não diria não mesmo se estivesse me pedindo um rim.
Portanto, aí vão as 30 coisas das quais às vezes eu mesmo me esqueço:
 
1) Tenho que beber pelo menos três uísques antes de entrar em um avião.
2) Quando menino fui atropelado por um jipe e salvo de um afogamento por um ladrão. Que eu me lembre, em três outras oportunidades a morte passou de raspão.
3) Adoro pão com linguiça e arroz com rapa.
4) Gosto de cozinhar. Muitas vezes, cozinho para não pirar.
5) Adoro futebol. Cruzeirense de ir ao estádio. De “ver” o jogo pelo rádio.
6) Fui “vencedor” de um único concurso literário em minha vida. 
    Foi uma ‘tarefa’ no grupo Escolar Maria Ortiz, em Barra do Cuieté-MG; a redação “Meu Brinquedo favorito” venceu “o ponto” para a equipe Azul, do terceiro ano primário. 
7) Quando cheguei aos Estados Unidos trabalhei de pasteleiro (fazia pastéis de Belém em uma padaria portuguesa). 
   Fui também lava-pratos, ajudante de cozinheiro, garçom, funcionário de empresa-de transportes e servente de pedreiro. Aliás, o pior servente de pedreiro que a construção civil de New Jersey já conheceu.
08) Comecei a escrever coisas visitando um pistoleiro de aluguel condenado a 380 anos de prisão, em um presidio de Juiz de Fora. Eu tinha 18 anos.
09) Meu pai não queria que eu vivesse de escrevinhações. Fez de tudo para que eu fosse militar, como ele. Na contra-mão mão de sua vontade, minha mãe presenteou-me com uma Olivetti portátil, que ela pagou em 12 “suadas” prestações na falecida Mesbla. 
10) Sofro quando tenho que usar terno e gravata.
11) Não gostaria de ficar careca.
12) Fui pai pela primeira vez aos 16 anos de idade.
13) Tenho três filhas.
14) Casei-me com uma moça bonita. 
    Casei ao meio dia, em Curitiba, o sol estava a pino e tive cãimbras durante o sermão do padre.
15) Toda vez que alguém me chama de “jovem”, acho que esta pessoa está tentando me vender um par de quixutes.
16) Adoro Portugal. Pudesse, iria várias vezes por ano a Portugal.
     Tenho vários ossos lusitanos em meu corpo.
17) Eu me sinto mais mineiro do que qualquer outra coisa. 
     Muito mais do que brasileiro ou americano, eu sou mi-nei-ro. De Minas Gerais.
18) Se tivesse que fazer uma tatuagem, tatuaria o triangulinho vermelho da bandeira de Minas Gerais no bíceps.
19) Cheguei aos Estados Unidos aos 21. Tenho 51. Vivi toda a vida adulta no estado de Nova Jersey.
20) Quando comecei a escrever queria ser uma espécie de Augusto dos Anjos menos pessimista. Depois queria ser Drummond e depois, Roberto Drummond.
21) O livro Hilda Furacão, de Roberto Drummond, é dedicado a mim. Também a mim, que fique claro. O que me honra da cabeça aos pés.
22) Tive uma produtora de shows de MPB com dois grandes amigos nos EUA. Fizemos coisas que julgo importantes por aqui.
23) Sofro quando entro em um lugar e está tocando axé, breganejo, pagode ou “fanque”. Este é um dos motivos porque vou pouco aos restaurantes brasileiros de Newark.
24) Parei de fumar no dia 1º de dezembro de 2011, após escalar – de carro – um poste da South Street. Carro e cara se arrebentaram. 
   Parei como forma de agradecimento pela oportunidade de continuar entre os vivos. Eu era fumante desde 1980.
25) Eu não gosto de ir a festas de crianças, nem de ir à Disney com minhas filhas. 
   Não fui. Não vou. Não irei. 
   É por estas e outras que ainda morarei no inferno.
26) Não gosto de praia. Nem de carnaval.
27) Acho as obras de Niemeyer uma bobagem. A forma não segue a função.
28) Tenho preguiça mental de falar inglês. Minha tecla SAP está quase sempre desligada.
29) Entre 2011 e 2013 tive muita vontade de voltar pra Minas Gerais e ir morar numa casa de montanha e ser feliz para sempre. 
    Esta vontade está passando. Já passou.
30) Tenho os melhores amigos que o afeto pode comprar.

 

  

 

 

 

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.