sonhos e agonias

Verso AbertoBy Verso Aberto 2 anos agoNo Comments
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O Verso Aberto recebe hoje a visita do poeta Adair Carvalhais. Ele é de Governador Valadares-MG e mora  há muitos anos em Belo Horizonte. É professor de História na UFMG e atualmente faz pós doutorado em Portugal, de onde manda estes três poemas. E o primeiro fala do Rio Doce, um sonho que agoniza. Mas, se você quiser ter mais da obra do Adair basta entrar no blog que ele edita: ventosdesencontrados.blogspot.com.br.

 

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noturno

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o rio que molhava
meus pés trazia de
longe a memória acre
das árvores os sonhos

.
íntimos das
pedras

.
transbordava a vastidão
das areias
ancestrais

.
o rio que atravessava
meu corpo levava
pra longe a angústia
muda dos peixes o vigor

.
das
matas
saciava os desejos

.
das margens
desmedidas

.
o rio da minha
meninice revolve se
na lama escura sufoca

.
na aridez mineral

.
o rio da minha
vida arrasta a
morte para todos

.
os lados agoniza

.
a terra

.
o horizonte

.
a esperança

——-

encoberto

decerto eram felizes
aquelas casas brancas
e azuis de janelas
aos pares por onde

.
entram manhãs e altas
montanhas

.
eram felizes aqueles
quintais com meninos
pelados correndo
atrás de galinhas

.
decerto eram felizes
aquelas casas pequenas
que se espalham
entre árvores sobem

.
nos morros atrás
dos animais

.
felizes aquelas águas
que fartam os cães
e fazem verdes
os horizontes

.
decerto eram felizes
aquelas casas acesas
onde queima o fogo
das tardes frias

.
aqueles homens crus
de pele puída
que trabalham sol
a sol

.
e apenas esperam
a noite chegar

 

——-
aurora

lentamente meus
olhos descobrem indícios
enluarados na
manhã

.
uma brecha morna
de luz inventa
memórias inadiáveis de teu
corpo

.
minhas mãos surpreendem
alvuras nas
sombras íngremes
de tuas pernas

.
na janela o sol
inflama teu pescoço
vulnerável em meus
lábios

.
o dia espreita
o encontro de nossos
abismos a rendição
de nossos
tremores

.
dorme em mim
o sabor do teu
cio

.

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