Somente de regata e calcinha

Verso AbertoBy Verso Aberto 3 anos agoNo Comments
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A convidada do Verso Aberto desta semana é uma escritora mineira de Contagem. Ana Paula Costa é pedagoga, mas atua como professora de Educação Infantil e diz que adora isso. É fã de Lygia Fagundes Telles, Érico Veríssimo, Cecilia Meirelles e Luiz Vilela entre outros. Mãe da Mariana e da Letícia.

 

 

 

Saí apressada do trabalho. Cheguei em casa  correndo. Passei antes na pequena mercearia da esquina. Comprei algumas batatas pra fazer com carne cozida.

Tirei a blusa do trabalho e vesti uma regata confortável. Mantive o mesmo jeans.

Iniciei o almoço. Coloquei a carne temperada de véspera na panela de pressão para apressar o cozimento. Enquanto isto iniciei o preparo das batatas em outra panela.  Reservei tomate picado e cebola para acrescentar à carne, juntamente com as batatas.

Quando estava lavando o arroz, Patrícia entrou na cozinha. Pensei:

__ Lá vem interrogatório. __ Dito e feito. Na verdade ela não fez simplesmente uma pergunta:

__ Você está fazendo carne moída de novo? __ Criticou, fazendo referência ao dia anterior, quando preferiu trocar a carne por um ovo frito. Irritada, respondi:

__ Não senhora. É carne cozida. __ E antes mesmo que eu iniciasse meu rosário de explicações sobre a necessidade de evitar frituras e bifes, ela falou:

__ Oba! Carne cozida?

__ Sim, filhinha! Igual à carne que a vovó Helena faz. Você gosta? __ Perguntei admirada e me sentindo ignorante quanto ao gosto alimentar dela.

__ Gosto mãe. Aprendi a gostar. __ Ela respondeu ao mesmo tempo em que balançava os braços de um lado pro outro.

__ Ah! Bom! __ Afinal eu não estava tão desinformada assim. __ Aprendeu a gostar. Ainda bem. __ Pensei em voz alta.

Ela retornou à sala. Avisei que não demoraria muito. Pensei na reclamação que viria de Marina, mas já estava preparada. Diria apenas:

__ Vai comer o que tem. Se não quiser, fique com fome, mas não pense que eu arrumarei algum lanche antes de 15 horas. Não precisa nem pedir pra eu ir à padaria comprar qualquer coisa, pois eu não vou.

Marina não apareceu. Senti um grande alívio quando terminei de fazer o almoço e soube que ela estava dormindo. A reclamação viria mais tarde e enquanto isto, eu almoçaria em paz com Patrícia.

Patrícia repetiu a carne cozida. Terminamos o almoço.

Lavei os pratos, copos e talheres. Coloquei pra escorrer. Escorredor é tudo de bom: adia por um tempo, a chatice de guardar as vasilhas. Mantive as panelas no fogão pra esquentar o almoço, quando Marina acordasse.

Terminei a primeira parte da arrumação da cozinha. A parte chata faria somente à noite, depois de tudo terminado.

Fui pra fora da casa concluir o serviço que havia começado na véspera. Lavei todo o quintal com a ajuda de dois baldes. Minha casa é enorme: lote padrão de 360 m² com praticamente toda a área construída, exceto um pequeno espaço de 4 por 2 metros de terra, mais ou menos,que será futuramente um jardim.

Jogar água, ensaboar e enxaguar um quintal como o meu, já valem por dois dias de trabalho. Antes disto, lavei a casa da cachorra. Joguei desinfetante e sequei o piso. Recoloquei o tapete e enchi as vasilhas de água e ração. Ordenei vingativa, que ela entrasse na própria casa. Ficaria ali dentro até sábado à noite. Castigo pela bagunça de fezes e urina que promoveu no quintal inteiro. Não pude evitar um sorrisinho de vitória quando ela, humilde, com o rabinho entre as pernas, passou por mim e entrou na casinha. Fechei o portão e lavei o quintal. Durante o trabalho, puxei várias vezes meu jeans até a cintura.

Depois da arrumação do lado de fora, passei pano de chão em quase todos os cômodos porque eu já tinha varrido a casa no dia anterior. E passei pano sem parar. Quarto, que foi um dia de casal, valendo por dois de tão grande; mais dois quartos de solteiros, um pequeno quartinho de passar roupas e uma sala enorme para dois ambientes. Em seguida, lavei a copa, a cozinha, os dois banheiros internos e a pequena área de lavanderia. Deixaria a poeira dos móveis pra remover no dia seguinte. O trabalho com as vasilhas seria adiado também.

Eu estava exausta. Não havia lanchado. Aceitei sem discutir o fato de Marina não ter almoçado. Será que o motivo foi a carne? Dei de ombros. Eu não saberia também dizer o que as meninas comeram durante a tarde.

Bastante cansada, lavei os fundos das gaiolas dos passarinhos. Troquei a água e o alpiste. Já eram 21 horas quando eu amarrei as bocas dos sacos de lixo para levá-los até a rua. O lixeiro passaria no sábado de manhã. Colocando na rua à noite, eu não precisaria levantar cedo no dia seguinte.

Enquanto fechava o lixo, constatei o que pra mim não passava de um mito: trabalho doméstico queima mesmo calorias. Distraída e cansada, amarrando os plásticos, fui dar pelo meu jeans, quando ele já estava caído até metade das minhas coxas.

Eu ali no frio. Somente de regata, calcinha e jeans descendo pelas pernas abaixo.

Concluí que estava mais magra de tanto faxinar minha casa. Mas infelizmente, com a mesma gordurinha localizada na cintura.

 

 

 

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