Quando o Fogo corteja a Chuva

Verso AbertoBy Verso Aberto 1 ano agoNo Comments
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(Agradecimentos à Ana Cecília Romeu, que mandou esta inédita prosa poética para o Verso Aberto)

A Chuva balançava suavemente seus quadris. Suas gotas como pulsos finos envoltos em braceletes de ouro moviam-se ao som da canção em falsete. Fogo assistiu ao baile ocultado por um filete de sombra que se aconchegava em uma das laterais do beco. Com o espírito excitado, passou a imaginar histórias e desejar geografias. Enfeitiçado pelo universo da fêmea líquida, decidiu abraçar a água. Grande susto Chuva levou. Sentiu pela primeira vez escorrer-se em morno. Fios de calor mesclavam-se em suas mechas prateadas e passeavam até seu ventre. Dos olhos de Chuva saltaram lágrimas a vapor. Chorava por nunca saber-se tão feliz; enquanto Fogo se fez labareda em ereção por jamais saber-se tão feliz. Os dois estavam no mesmo beco, penitentes da mesma sentença, cúmplices das letras de um livro de esponja a almejar castelos em bolhas de sabão aquecidas. E pediram perdão um ao outro…

A morte da esperança acontece assim, afogada em água quente. Submersa, uma âncora é presa a um anjo de cristal.

 

 

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