Pragmática

Bispo FilhoBy Bispo 3 anos agoNo Comments
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Para fugir da vaidade, o verbo nasceu feio
e avesso aos espelhos embora almejasse assoprar
nos ouvidos do mundo algo recôndito.
Para evitar amarguras, versificou-se
em excesso de açúcar e, diabético,
quis cometer paixões de risco
no lugar levítico onde moram as solidões.

Para evitar a métrica, o verbo nasceu na rua,
na rima apressada do meio-dia tramado na capital.
Nasceu tonto e anestesiado embora se fizesse lúcido,
permitiu-se pronto em sua maneira lacunar,
escolheu-se de braços longos feito
aranha gigante ou os tentáculos de um satélite sideral
e, totalmente aberto, disse palavras num tom verde
de quem canta nas escalas das comas para acordar os corações.

Para evitar quebranto, o verbo nasceu manco,
sem as sanfoninhas e as pastoras parnasianas.
Nasceu sem o ouro barroco embora não fosse oco.
Nasceu verso simplesmente aberto, sem grandes pretensões
feito roupa aquecendo-se ao sol solitário e único
do sempre, luz delicada para ouvidos e violões.
Verso-verbo que canta cego,
Verso singular sem ego,
Verso dito
Só verso
Só.

 

 

 

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Bispo Filho

Bispo Filho é poeta de Governador Valadares, Minas Gerais, onde fez parte do Movimento Poético e ajudou a editar o folhetim “Varal” e o jornal “Poetarte”. Escreveu os livros “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com Roberto Lima. É professor, músico e artista plástico. Edita o blog “Fumegação”.