Pequeno mapa do medo

Roberto LimaBy Roberto 3 anos agoNo Comments
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A ansiedade é a véspera do medo. O pavor, a ênfase. 

Quando não domesticado, o medo pode se transformar em doença, uma péssima companhia que nos influencia e transtorna, e que nos leva a viver um lugar árido e frio, uma espécie de cidade pavimentada pela tristeza, desiluminada pela dor. 

Sou defensor da tese de que, em doses homeopáticas, ele pode jogar a nosso favor. 

Pode demarcar limites benéficos e, assim, nos dar uma sensação – nem sempre verdadeira – de segurança. 

Na infância eu tive um amiguinho, que tinha medo de borboletas. Foi o primeiro caso de Motefobia de que tive notícia. 

Ele viu uma borboleta – das criaturas de Deus, uma das mais belas – em uma aula de ciências e se assustou. 

A mesma borboleta que um dia enfeitou a primavera e que pousou em flores. 

Bela e colorida, vista bem de pertinho num microscópio, era um mostro horroroso, vestido de falsa alegoria. 

Ele percebeu, ali, que de perto ninguém é perfeito.  

Ninguém é tão bonito. Ninguém! 

Naqueles mesmos dias passariam por mim a mula-sem-cabeça e o lobisomem. E eu sobrevivi.

Mas eu temia o caboclinho d’água, uma lenda do rio que corria pela minha infância.

Por isto nunca pescava sozinho.

Veio daí essa tendência gregária, esse hábito de só andar em bando.

A vida tem tantos medos, constataria, à medida que molhava meus pés na água. Ela tem mais medos do que certezas, concluí.

Medo da cuca, que vem pegar.

Medo de andar de avião. Medo de andar.

Medo de lugares fechados.

Medo do elevador despencar.

Medo de dirigir um automóvel.

Medo de entrar na multidão.

Medo do escuro, da chuva, do relâmpago e do trovão.

Medo da violência urbana, de parar no sinal de trânsito.

Medo de seguir em frente.

Medo do pivete, do sequestrador-relâmpago e das polícias civil e militar.

Medo do ladrão e de quem se parece com um.

Estereotipamos, já perceberam? É o medo nos manipulando.

Temos medo de qualquer um.

Às vezes temos medo de nós próprios.

Medo. Muito medo.

Medo de cair para a segunda divisão.
Medo de cair e não levantar.

Medo de Deus.

O tal temor a Ele, anunciado nas escrituras.

Medo de morrer e ir pro inferno.

Da chapa quente do inferno, do chifrudo de olhos vermelhos e seu pontiagudo tridente.

Medo do fracasso.

Medo de broxar.

Medo de arriscar, mesmo sabendo que quem não arrisca, não petisca.

Medo de se libertar.

Medo da autonomia.

Ablutofobia, Acrofobia, Belonefobia, Bienofobia, Claustrofobia, Lalofobia, Lactofobia, Motefobia, Nasofobia, Queimofobia, Tafefobia e Xenofobia.

Tudo é medo, medo, medo, medo, como cantou o cearense Belchior, em Pequeno Mapa do Tempo.

Mas existem muitos outros, comprova a ciência.

O pior de todos, no entanto, é o medo de ser feliz.

Posso garantir e passar recibo, meus amigos, não existe medo pior.

 

 

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.