Partagas, Montecristos…

Roberto LimaBy Roberto 2 anos agoNo Comments
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Ah, os charutos possuem um certo charme, um èlan… Quem nunca viu aquela foto de Che Guevara relaxado, sublimado pela fumaça de um Partagas? De memória, evoco a imagem da atriz Sharon Stone nas páginas da revista Cigar Aficcionado. Ou a estampa de Belchior na capa de Todos os Sentidos, um de seus melhores discos.

 

 

 

 

(Para Afonso Borges)

 

A primeira vez que me deparei com um charuto era menino. Foi numa encruzilhada e ele estava lá, misterioso, ao lado de uma galinha assada e uma garrafa de Velho Barreiro.

Fiquei intrigado, claro.

Na nossa casa a comida era servida sobre a mesa e os cigarros de papai, apesar de igualmente sem filtro, eram mais finos e curtos.

Dona Rute explicou que aquilo era uma oferenda, colocada ali como atestado da fé de alguém, um agradecimento, talvez um pedido de ajuda.

O tempo passou e eu demoraria a me deparar com outro charuto.

Oferendas em encruzilhadas, voltaria a ver.  Muitas vezes.

Algumas tinham farofa, outras tinham frutas, o que me faz lembrar de um episódio pitoresco.

O roqueiro Ozzy Osbourne, de passagem pelo Brasil  em 1985, subia uma trilha na mata para chegar ao Cristo Redentor,  quando deu de cara com uma insinuante bandeja de frutas colocada ao pé de uma cachoeira.

Para espanto da entourage, o homem que já arrancou a cabeça de uma pomba viva com a boca durante um show, não tomou conhecimento dos alertas de mau agouro feitos pelo guia.

Sentou-se tranquilamente sobre uma pedra e  devorou a oferenda.

Não morreu. Nem parou de fazer sucesso.

Mas, eu  falava de charutos.

Ah, os charutos possuem um certo charme, um èlan… 

Quem nunca viu aquela foto de Che Guevara relaxado, sublimado pela fumaça de um Partagas?

De memória, evoco a imagem da atriz Sharon Stone nas páginas da revista Cigar Aficcionado. Ou a estampa de Belchior na capa de Todos os Sentidos, um de seus melhores discos.

Bill Clinton quase deu ao charuto uma má reputação,  é fato. Mas estes são outros quinhentos.

Assim como eu, o escritor Afonso Borges também fuma charutos. Sempre que vou ao Brasil, trato de presenteá-lo com Cohibas e Montecristos, suas marcas favoritas. O que não é muito bem visto por Tatyana, sua mulher.

É que nem todo mundo gosta do cheiro de tabaco, mas Afonso é capaz de muitos sacrifícios para desfrutar deste prazer proibido em sua casa.

Toda vez que fuma, submete-se a um verdadeiro ritual de purificação, que inclui mandar a roupa para a lavanderia, bochechar a boca com produtos que podem ir de Listerine a água sanitária.

Em seguida, toma um banho demorado, escova os dentes  três vezes e se esbalda em bom perfume francês.

Mesmo assim, Tatyana o fareja à distância:

–  Fumou charuto outra vez?.

Resignado, exila-se no quarto de visitas.

Nestas noites,  ele sonha com a brisa do mar de Havana e o hálito cítrico dos mojitos da Bodeguita del Medio, compartilhados fraternalmente com o fantasma de Ernest Hemingway.

 

 

 

 

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.