O simulacro poético do silêncio

Verso AbertoBy Verso Aberto 3 anos agoNo Comments
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O convidado do Verso Aberto  de hoje é o poeta de Ribeirão Preto Matheus Arcaro. Aqui estão três poemas representativos de sua poesia. Ele é autor do livro de contos Violeta velha e outras flores, Graduado em Comunicação Social e também em Filosofia. Pós-graduado em História da Arte. Atua como diretor de criação publicitária e como professor de Filosofia e Sociologia. Desde 2006 tem artigos, crônicas, contos e poemas publicados em veículos regionais e nacionais. E ainda é artista plástico. Algumas obras estão aqui em baixo. Sua arte pode ser vista em www.matheusarcaro.art.br

 

 

 

Silêncio

 

Não fere aos amantes

as frestas

entre as frases.

 

À língua em repouso

deita o desejo

que se dilata

até tocar o incontestável.

 

A ausência das palavras

é o palco dos olhos,

dos hálitos,

dos hábitos despidos.

 

Peles, pelos e peitos

entrelaçados,

bêbados de presente.

 

Um espetáculo

em que as proposições

são espectadoras.

E aplaudem atônitas

a eloquência dos corpos.

 

 

ANÁLISE POÉTICA

 

Na visita ao analista,
a poesia reclamou dos amantes,

do arco-íris,
das íris coloridas,
dos céus estrelados,

dos lados luminosos,

dos postais, pontes e poentes.

 

À mostra com os dentes,
disse estar decidida a lançar um olhar

alijado de pedestais, flores e frases feitas.

 

Agora, quer rastejar pela lama,
trocar a dama pela puta. O amor pela secreção.
– Mais genitália e menos coração, senhores!

 

Pretende enfiar o sol no bueiro,
arrancar os testículos do absoluto

e esfregar o cu na cara do sossego.

 

Sim, ela precisa espedaçar a esperança.

E na dança, descalça, rodar pela praça
sem seguir receitas ou procurar clemências.

 

Vai, então, poesia!

Crava a língua na carne crua do presente.

Sobe a saia, goza com o sublime

e arremessa a eternidade suja na sarjeta.

 

 

 

SIMULACRO

Num instante baço,
à procura dos teus passos,
perpasso o espaço insípido
da minha alma,
como um pássaro que sobrevoa
 seu ninho abatido.

Pinço teus traços
à deriva na minha lembrança,
teu abraço, tua dança,
tua língua, douta no meu corpo.

Tuas sobras me assombram.
Tuas sombras me soçobram.

Sou refém deste silêncio áspero
que está entre fato e fantasia:
apenas o pó dos teus restos maquia
a solidão
presa num beco seco do meu peito.

 

 

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