O muro 

Fernando CamposBy Fernando Campos 12 meses agoNo Comments
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o-muro

 

Como dizer grande, amplo, ancho, vasto muro?
Muro monstro. Ali, defronte, muro extremo, enorme,
demasiado, avantajada presença. Muro pra quê? 
Dos tais, que serventia? E os fatos pregressos?
Defronte, ali, o muro. O próprio, propriamente.
Muro a perder-se de vista, lateral a tudo. De tanto,
o ausente. Miserere nobis, que esse muro freme!
Humano muro. Na origem, razões se perdem.
Lá está ele, aparato, coisificante parede.
Embuste para os olhos, imprópria paisagem:
a cena muda, a cena cala. O por-detrás,
quem sabe? Dir-se-ia: vizinha gente. Murmúrios,
desagrados – rixas talvez, ofensas. Defronte, 
o muro, o acinte, dies irae, rex tremendae –
a sanha, o açoite. Cada pedra, tijolos muitos, cimento
e artes. Defronte, um tudo. Mudamente, abstenção,
recuo. Muro de mas, poréns. Muro repúdio, bloqueio, 
blague-construção. De quanto se pense, verdade:
lá estará ele: o muro que oculta, o muro-muro,
o muro-murro. Estreito, mas alastrado, disforme, 
ingente. Em dizer e revelar-se, antes cedo do que
tarde. Tanto mais o muro esconde, mais e mais
é o que se sabe. De todas as misérias do mundo,
o muro defronte é a mais torpe das misérias.

 

 

 

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Sobre

 Fernando Campos

  (14 poemas no Verso Aberto)

Fernando Campos é poeta mineiro de Bom Jesus do Galho e reside na vizinha cidade de Caratinga, desde 1984. É formado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caratinga – FAFIC, onde também fez seu curso de pós-graduação em Língua Portuguesa. É casado, pai de dois filhos, e leciona na rede pública estadual, tendo trabalhado também em várias instituições de ensino particulares. É autor do livro “Insolvência – fragmentos de amor e morte e um esboço de despedida” (2015, Ed. Caratinga), entre outras obras ainda inéditas.