O autógrafo

Roberto LimaBy Roberto 3 anos agoNo Comments
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Demorou uma eternidade, mas vi quando abriram a porta e os atletas foram saindo, um por um, assediados por uma pequena multidão. Espremido no meio de pessoas maiores, eu me iluminei quando aquele rapaz vestido com roupa de moço da capital veio caminhando na minha direção.

 

 

 

(Para o craque Joãozinho, Olinto Campos Vieira e em memória de Roberto Batata)

 

 

 Esta estória começa no estádio José Mamud Abbas, o Mamudão, em Governador Valadares.

 Aconteceu no dia 30 de março de 1975 e o Esporte Clube Democrata está recebendo o poderoso Cruzeiro Esporte Clube, time da capital.

 

 1º Parte:

 

Eu tinha 13 anos e meu ídolo era o cruzeirense Roberto Batata, ponta-direita que todos apontavam como grande revelação e com futuro garantido na seleção brasileira.

 Esguio, bonito, usava cabelo Black Power, assim como seus colegas Joãozinho e Eduardo Amorim.

Joãozinho era a coqueluche do time, ponta-esquerda destemido e driblador, chamado pelo cronista esportivo Roberto Drummond de “o bailarino da Toca”.

 O versátil Eduardo, por sua vez, jogava nas duas pontas e também no meio de campo. Foi o criador do célebre drible “Rabo de Vaca”.

 O jogo terminaria de dois a zero para o Cruzeiro, com dois gols do centroavante Palhinha.

 

Mal o juiz apitou o final da partida, corri para a porta dos vestiários na esperança de recolher meu primeiro autógrafo de um atleta profissional.

Eu queria a assinatura de Roberto Batata para mostrar aos amigos da escola.

 Demorou uma eternidade, mas vi quando abriram a porta e os atletas foram saindo, um por um, assediados por uma pequena multidão.

 Espremido no meio de pessoas maiores, eu me iluminei quando aquele rapaz vestido com roupa de moço da capital veio caminhando na minha direção.

 Trêmulo, postei-me bem na sua frente, como um zagueiro que tentasse pará-lo, oferecendo-lhe papel e caneta:

     – Roberto Batata, por favor, me dá seu autógrafo.

 O jogador baixou a cabeça, pegou a caneta, escreveu o nome e entrou apressadamente no ônibus do clube.

     Eu dobrei o papel, guardei-o no bolso e fui para casa, feliz.

     No dia seguinte, contei aos colegas de escola o encontro com o ídolo, falei do jogo, do placar e do autógrafo.

     Tirei o papel da algibeira, abri e mostrei a eles, que caíram na gargalhada.

     Naquele pedaço de papel branco estava escrito, em azul:

    Joãozinho.

 

 2º Parte:

 

 

Vinte anos depois, homem feito, jornalista estabelecido e já morando nos EUA, estou em uma mesa de restaurante jantando com algumas celebridades.

 Os músicos Sá &Guarabyra e Celso Adolfo estavam lá. Assim como os já ex-jogadores Reinaldo e Joãozinho.

    Aquele Joãozinho da primeira parte desta estória.

     No meio da conversa, lá pela quinta garrafa de vinho, contei a todos o episódio ocorrido duas décadas antes.

    Ligeiramente constrangido, Joãozinho disse não se lembrar da estória, mas que era muito comum os três atletas serem confundidos fora dos gramados, naquele tempo.

     E completou:

      – Se dei o autógrafo, foi para não decepcionar o menino.

      Rimos muito, bebemos, comemos, sairíamos do restaurante às 4 da manhã.

      Um pouco antes da debandada geral, ele veio da outra ponta da mesa até onde eu estava.

     Acocorou-se ao meu lado, pegou guardanapo e caneta e disse, com os olhos marejados:

       – Antes de irmos embora daqui você poderia me dar um autógrafo?

     E eu dei.

     Foi o primeiro autógrafo que dei na vida.

    O primeiro e único.

 

 

 

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.