No princípio era o som

Nathan SouzaBy Nathan Souza 2 anos agoNo Comments
Home  /  Nathan Souza  /  No princípio era o som

 

 

3

 

Escrevo porque não sei pintar,

e de todas as sujeiras que fiz,

a poesia foi a única que

não largou com água e sabão.

 

Escrever passou a ser

o meu mais prazeroso ato fortuito,

realizado no (des)compromisso

que só a arte pode praticar.

 

Escrevo porque não sei cantar,

e de todas as músicas que ouvi,

a poesia foi a única

que não precisou de refrão.

 

Escrever passou a ser

o meu ato de liberdade e de penitência.

Só assim consigo capturar

o tempo que evapora.

 

Escrevo porque minha audição é ruim

e só o grito das minhas profundezas

eu consigo ouvir bem.

 

Escrevo com tudo o que tenho,

mas não ouço a música saindo das palavras.

 

A música toca profundamente

como o último eco de um desfiladeiro,

e a partir dela transformo minha escrita

no único instrumento que posso tocar

sem me preocupar com a afinação.

 

 

 

Category:
  Nathan Souza
Nathan Souza

Nathan Souza é poeta piauiense e esteve entre finalistas ao Prêmio Jabuti de 2015, além de ter recebido vários prêmios e indicações. Já publicou seis livros: “O Percurso das Horas” (2012), “No Limiar do Absurdo” (2013), “Sobre a Transcendência do Silêncio” (2014), “Um Esboço de Nudez” (2014), “Mosteiros” (2015), “Nenhum Aceno Será Esquecido” (2015) e “Dois Olhos Sobre a Louça Branca” (2016).