Ícaro às avessas

Verso AbertoBy Verso Aberto 3 anos agoNo Comments
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O convidado desta semana aqui no Verso Aberto é o poeta Gustavo Terra. Nascido em Jacareí, mora em SJCampos/SP, onde trabalha como Agente Cultural na Fundação Cultural Cassiano Ricardo. Começou a escrever poemas em 1990 e haikais em 1992. Não é acadêmico e possui dois livros de poemas e um de haikai concluídos e inéditos. Está com alguns trabalhos em andamento, como um  livro de dísticos místico-poéticos, um livro de poemas da Infância, um livro de poemas na forma de cantos, um trabalho de haigas com a escritora e fotógrafa Rita Elisa Seda, chamado “contemplações”, no qual faz contrapontos haikaísticos sobre fotos da Natureza, e o constante registro dos haikais e dísticos captados no dia a dia.

 

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AOS POETAS DE VERA

Ler o que escreveram esses sonhadores insones
desde a suave manhã
até a noite derradeira
o que se inscreveu nas rugas do tempo
nas rusgas da mente
desses lúcidos recriadores do senso
moduladores do verbo
jardineiros do verso

é ler a vida com vistas de achar
aqui, ali, outro lá
a vida que é divisa
da terra seca
e do numinoso mar…

escrevemos por ordem da Luz
tecendo uma luz de outra ordem
de sons que nos pintam outros
que somos
em carne de fogo
sem osso
só sopro.
______________

Brincando de bate-palma com o avô
a pequena não sente
não vê no embasso dos olhos
a vida petrificada
a estátua
a espera…

em seu vestidinho amarelo celeste
ela não sente
o peso da história
de um homem
o chão a trama solta
memória
na fibra cega que a veste
-fibra só brilho
fímbria agreste de sol incolor
no amarelo-

ela nada vê
não é ela que sonha
ou espera o poema
ela apenas pinta
o dia novo de sempre
que voa

na indivisível
tela.                                      

__________________

Até segunda ordem
(a qual nos furta ao sono)
continuaremos no escuro
ninguém sabe nada aqui
nesse teatro de sombras
onde cada sombra
é sombra de outro
alheia de si (em sua fala)
mastros sem velas nas trevas do sonho
nas traves do olho que dorme

Falar é o que nos torna outro
e fala-se tanto quanto menos se sabe
dizendo o que nada
diz a si

falar além do esquecimento
aquém do alumbramento

Ícaro tomado às avessas
aqui voa-se sem mirar o mar
caindo-se à secura da pedra
o medo calcado no dom de iludir

Falar, correr, gozar, surtar, cair,
chorar, morrer, levantar, falar…
eis o moto-perpétuo do absurdo…

o coração na proa entoando
só o oceano ecoa.

 

 

 

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