Essas mães interioranas

Roberto LimaBy Roberto 3 anos agoNo Comments
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Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas.

Para a dona Rute

 

 

Eu quis escrever um poema homenageando minha mãe. E não só a minha. A intenção era homenagear todas as mães. Mas o poema acabou não saindo, como não tem saído nenhum outro verso da fábrica inativa, que tem sido esse baleado coração.

Dona Marocas, dona Ercília, dona Dózinha, dona Filhinha, dona Lola, dona Esmeralda, dona Niquinha e dona Rute, a minha, eram, todas, maravilhosas. Lembro-me claramente daquelas senhoras em meus primeiros anos em São Raimundo.

Dona Cilinha cantava no coro da igreja.

Dona Marocas – mãe das moças mais bonitas – era sábia, dava conselhos, e não carregava nenhuma tristeza no olhar.

Dona Ercília ajudava os pobres.

Dona Dózinha estava sempre de mau humor. Seu marido virou garimpeiro e foi viver no Pará.

Dona Lola freqüentava uma igreja crente.

Dona Niquinha cuidava do jardim.

Dona Vilma plantava hortaliças.

Dona Esmeralda chorava às escondidas.

Dona Filhinha mentia.

Dona Socorro fazia biscoitos

Dona Ireni aprendeu a cortar cabelo.

Dona Isaura estudava à noite. De dia vendia laranjas no ponto final do ônibus.

Dona Maria era a melhor amiga de dona Conceição.

Que era esposa de Expedito, que era maquinista de trem.

Dona Laura, de tão elegante, parecia mulher da capital. Quando andava pelas ruas deixava um cheiro de alfazema no ar. Estava sempre assim, refrescada, pronta para o calor do inferno nas tardes de Governador Valadares.

Dona Ana era calada.

Dona Angélica alfabetizava meninos.

Dona Joana criava cabritos. Seu único filho morreu atropelado por um caminhão Scânia Vabis.

Dona Rita organizava a novena.

Dona Juraci cresceu senhora de terras, teve gado, era filha de doutor. Envelheceu pobre e feliz, concubinada com um vaqueiro, ex-empregado de seu pai.

Dona Jandira teve filho prefeito, outro vagabundo e um outro meio artista.

Dona Lourdes era viúva. Não teve a mesma sorte de dona Adelaide, que se casou pela segunda vez.

Dona Cássia foi abandonada pelo esposo. Ela, que na juventude quis ser cantora e atriz, teve um filho que fugiu de casa e uma filha meretriz. Mudou-se para São Paulo e dela ninguém nunca mais ouviu.

Dona Selma lavava roupas para fora. Assim como dona Auxiliadora e dona Idalina.

Dona Norma conversava com o vento, aprisionava passarinhos e fazia tricô na varanda da casa até escurecer.

Dona Teresa dançava catira.

Dona Ivonete sabia bordar. Suas filhas eram costureiras. Seu marido, alfaiate.

Dona Rute lidava com um garoto meio louco, que queria sobreviver das palavras que bebia do Rio.

Maravilhosas, aquelas mulheres. Lindas, marcantes, cada uma do seu jeito. Como esquecê-las?

Com o avançar da idade elas acabaram virando outra coisa. Se na infância eram nossas heroínas, com o passar dos anos viraram santas. E, como tal, merecem que todo filho lhe construa um altar enfeitado com as flores do amor eterno e recheado de oferendas da mais profunda gratidão.

Santificadas, sejam, as nossas mães.

Santifiquemos. Santificai!

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.