De superfícies e mergulhos

Verso AbertoBy Verso Aberto 6 meses agoNo Comments
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O Verso Aberto revisita hoje a poesia de Fabrício Costa, autor do livro “O riso que Contrasta”, de 2010. Atualmente trabalha no segundo livro, a ser publicado em 2018. Fabs é o codinome adotado em suas publicações regulares no Facebook, Instragram e Tumblr, como @mundofabs. É também ambientalista, cantor de chuveiro, escritor com mente e dedos inquietos. Graduou-se em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo em 2014 e atualmente cursa mestrado em Geografia nesta universidade.

Superfície

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Linha tênue,
limite da pobreza intelectual dos ignorantes,
margem oposta do saber,
rainha das más intenções.

Faz o raso parecer profundo,
e o profundo parecer raso.
Pode causar traumas em mergulhadores
ou matar nadadores menos experientes.

Amiga abissal dos homens cruéis, estúpidos e neandertais. 
Engenho enferrujado onde se produz a mais amarga garapa.
Trigo espalhado sobre a sujeira dos chãos dos moinhos de vento.
“Sepulcro caiado”, diria Jesus.

Faz o sujo parecer divino
e o limpo, satânico.
Faz latrina parecer jardim
e mina de ouro, campo minado.

Campo de visão dos tolos,
inimiga da verdade, irmã mais velha da hipocrisia,
arma usada nos campos de batalha dos malfeitores.
Superfície. Verdade é a sua ruína.

 

Esperança

Estradas confusas, 
terra quente, 
pés descalços, 
pedregulhos, 
mas sempre haverá alguma flor perdida a perfumar a margem, 
uma pequena sombra para refrescar os pés, 
ou uma folha larga de bananeira para embrulhá-los.
No pedregulho: cristais rosas e brancos para limpar as dores do caminhar.
No fim, um gramado verde, um beijo e abraços de boas vindas.

 

Primeira pessoa

36d9f261-2239-4931-bc0f-f22c21460578 (1)Eu que aprendi a escrever em primeira pessoa,
que aprendi a derrubar um muro de Berlim por dia,
que nunca dei vitórias ao medo, 
que sempre estive ao lado da luz, mas nunca deixei de flertar com a escuridão,
que sempre espalhei risos fáceis e lágrimas enclausuradas,
que sempre morri para o velho e renasci para o novo,
que não aprendi a compor,
que fiz chover sobre as cinzas.
Eu, um ser microscópico, 
composto químico, 
fagulha, 
tecido celular gerado ao acaso, 
mortal! 
Humano! 
Feito em carne, osso, pecado e virtude.
Eu, ultraje. 
Poeira cósmica. 
Eu que um dia acreditei que “amar se aprende amando”.
Não, Drummond, você me ensinou errado, amar aprende SE amando. 
Ao Universo, Deus de todas as coisas, deixarei a incumbência: ensinar-me sobre o amor.
E, rogo: oh, Universo! Não ignore a minha insignificância, 
pois se aprendi a escrever em primeira pessoa, 
posso aprender a explodir o sol, 
posso antecipar o fim do mundo.

 

 

 

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