Carta-poema ao pintor Paulo Vieira 

Fernando CamposBy Fernando Campos 2 anos agoNo Comments
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Paulo Vieira, Estudo – Nanquim

 

lia o poema the unending gift
de jorge luis borges quando
de repente
lembrei-me (se conjugo a permanência)
de nossa antiga amizade e semelhança

naturalmente levado
pelos fios do papel e andando
em corda bamba
escre(vi-te) e aqui estamos
nós
por intermédio destas irremediáveis
e necessárias linhas
con-versando reticências
como quem vê o dia
e
nele
a face nossa de um eterno dia-a-dia
— a nossa fase atemporal desperta

pouco é o meu dizer-te (com palavras)
conquanto o simples fazê-lo
já me satisfaça à busca
no re-buscar imagens
pressentidas no fluir das sentenças

acordado
apenas me visito em sonho
e me sondo
inconsciente
no infinito interior
de meu silêncio-luz

mas sei-te somente
comungando a brandura
no insaciável deste meu prelúdio
e interminável agora

ouço – ao longe –
vozes perto evocando a memória

nelas
(re)conheço-te amigo
e
ao prorrogar lembranças
vislumbro o amanhã presente
em minhas noites de acordar-me vivo
permanente no que fomos ontem


Caratinga, 30 de outubro de 1991.

Paulo Vieira – “Olho Aberto”, aquarela

 

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Sobre

 Fernando Campos

  (16 poemas no Verso Aberto)

Fernando Campos é poeta mineiro de Bom Jesus do Galho e reside na vizinha cidade de Caratinga, desde 1984. É formado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caratinga – FAFIC, onde também fez seu curso de pós-graduação em Língua Portuguesa. É casado, pai de dois filhos, e leciona na rede pública estadual, tendo trabalhado também em várias instituições de ensino particulares. É autor do livro “Insolvência – fragmentos de amor e morte e um esboço de despedida” (2015, Ed. Caratinga), entre outras obras ainda inéditas.