Bom mesmo é ser cachorro

Roberto LimaBy Roberto 3 anos agoNo Comments
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olhar de cão

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Por mais feliz que fique o dono da casa com a chegada de alguém,o rabo abanando do cão é insuperável. O homem não aprenderia a sorrir com o rabo, nem se tivesse um.

 

 

Para a Silvana Guimarães, que ainda aguarda o retorno da fujona Doze

 

 

O cão sempre foi o melhor amigo do homem. De uns tempos para cá começou a haver reciprocidade.
E o resultado de tantos anos sem apreciação é que tem gente, hoje, que gosta mais de cachorro do que de gente.
Dizem que é porque são mais sinceros, os cães.
Quando ele não vai com a cara de alguém, late e rosna. O ser humano, não.
Os cães ainda não aprenderam a fingir.
E ninguém demonstra alegria pelo acolhimento de forma tão expressiva quanto o cão.
Por mais feliz que fique o dono da casa com a chegada de alguém, o rabo abanando do cão é insuperável.
O homem não aprenderia a sorrir com o rabo, nem se tivesse um.
Mas é com a mulher, que os cães se dão melhor. Afinal, a mãe do cachorro não cozinha melhor que ela. E nem notam que ela engordou.
Os cães adoram passear com suas donas e não passam domingos inteiros assistindo futebol.
Não existe um único cão flamenguista neste mundo.
Você ainda pode argumentar que cachorro não deixa a toalha molhada sobre a cama e nem briga pelo controle remoto da TV.
Dizem por aí que o homem só confia no cão, porque este ainda não conhece dinheiro.
Pode ser verdade, pois os cães ainda não aprenderam a contar. Mas já existem milhares de homens ‘cachorreiros’ por aí. E os cachorrões. Mas este é outro assunto.

Tamanho apreço pelos bichos acabou significando uma ótima oportunidade de negócios, já que o homem não dá ponto sem nó.
E aí surgiu uma indústria milionária – e crescente – que explora com olhar cirúrgico este afeto entre bípedes e quadrúpede. O que acabou acarretando também uma sensível mudança de costumes.

Já notaram que os cães não comem mais o que sobrou do almoço dos humanos.
Osso?
Nem pensar.
Só se forem macios, criados após estudos científicos, sendo os mais sofisticados feitos a partir de chifre de antílope. Do contrário pode perfurar o estômago.
Para barrigas mais sensíveis criaram um cardápio com salmão, arroz integral, ovelha, vitela, frango ou peru.
E como andam cheirosos os cães de hoje…
Eles são escovados e tomam banho com xampu feito de produtos orgânicos.
Ganharam lojas especializadas e seções inteiras nos supermercados.
Nos pet-shops existem departamentos para diferentes estágios de suas vidas. Eles ganharam brinquedos, roupas, adereços e cosméticos.
Os cachorros do dia de hoje vestem roupa de gente.
Aqui nos EUA eles calçam bota de neve, têm capa de chuva, coleira com cristais Swarovski e outros luxos que o dinheiro pode comprar.
Cachorro bem cuidado tem cabeleireiro e hora marcada no spa para banho e tosa. Ele tem médico e dentista.
O que fez surgir uma novidade: o seguro médico e dentário canino.
Cachorro do dia de hoje tem hotel cheio de regalias e conforto, para quando o dono viaja. Nas cidades grandes, ganhou parques específicos, para onde leva o seu dono pra passear.
Os cidadãos mais abastados contratam o passeador de cachorro, que é a mais nova profissão do mercado. Ouvi dizer que ganham bem.
E já não é preciso ser uma madame para ter uma cachorrinho de madame.
Abundam yorkshiresterrier, poodles, chihuahuas, malteses e shihtzus em casas de trabalhadores comuns.

Pesquisei na internet e descobri que existe tratamento holístico para depressão canina. Devem ter aprendido com o homem, o truque da tristeza.
Existem também programas de televisão para que os donos entendam como funcionam seus bichos, e treinadores que ensinam a caminhar com coleira, rolar no chão e dar a patinha.
Têm ainda seriados veterinários que arrancam lágrimas durante procedimentos cirúrgicos arriscados e coisas assim.

O que me faz lembrar, nostálgico, dos totós e titils que conheci nesta vida. Eles deram lugares a animais com nome e costumes de gente.
Eu já não vejo um vira-lata vagabundeando pelas ruas da cidade desde o tempo em que havia vira-latas.
Ao contrário do ser humano, o  cachorro parece ser uma raça em franca evolução.

 

 

 

 

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Roberto Lima

Roberto Lima é poeta, cronista e jornalista, de Pedra Corrida, Minas Gerais. Integrou o Movimento Poético de Governador Valadares, onde ajudou a editar o folhetim “Varal”. Mora em New Jersey, Estados Unidos. Edita o jornal “Brazilian Voice” e também o blog “Primeira Pessoa”. Publicou o livro “Tango Fantasma”, e outros dois: “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com o poeta Bispo Filho.