Aos corações

Bispo FilhoBy Bispo 2 anos agoNo Comments
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paixão2

 

paixão

 

Peço aos quatro ventos

que engrossem o sentimento.

Os quatro ventos estão nos

quatro cantos do mundo

e assopram em vertical profundo.

 

Ao que estava esquecido e dissolvido,

peço que se torne concentração sólida.

Às esquinas retilíneas e brancas,

que se convertam em bordados e chagas.

Peço feridas bordejando pássaros nas

marcas que voam e doem e

nas picadas marcadas que doem e constroem.

 

Então é melhor aos corações que haja fogo

e que esse fogo desabroche a paixão de novo.

Ao coração duro como a pedra desejo a dissolução

pois que a lua é bela apesar da selva e a pedra

não deve ser obstáculo se já é parte do espetáculo.

Desejo ao coração patife espatifar-se em bife,

ao coração de mármore espichar-se em árvore.

Ao coração contábil,

desejo um incêndio inigualável.

 

Ao coração magoado e ressentido,

desejo muitos curativos.

Àquele que tirou férias prolongadas,

desejo urgências inesperadas.

Ao coração desiludido desejo

que não se acovarde diante do perigo.

Ao coração de rochedo, que se fechou ao medo,

que lhe sobressalte um raio perdido

partindo-lhe ao meio.

Ao coração estéril às flores por causa da dor

desejo um grande regador.

Ao coração desmobiliado

desejo um inquilino empossado.

Desejo, ao coração sombrio, um dia claro

e uma altura de dez pavimentos

para a qual o racional se desmanche de maneira

sobrenatural e o inevitável aconteça.

Pois, por incrível que pareça, o que antes era certo

pode se tornar inexplicável e o deserto irremediável

pode originar a multidão daquele que sente

apenas a falta da pessoa ausente.

 

 

               .

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Bispo Filho

Bispo Filho é poeta de Governador Valadares, Minas Gerais, onde fez parte do Movimento Poético e ajudou a editar o folhetim “Varal” e o jornal “Poetarte”. Escreveu os livros “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com Roberto Lima. É professor, músico e artista plástico. Edita o blog “Fumegação”.