Amorosidade

Bispo FilhoBy Bispo 3 anos agoNo Comments
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BARQUITOMANO

Vou seguindo teu passeio lúgubre sonhando loureirais e mirtos, mãos transparentes escavando imagens
a machado nesta paisagem de canal aberto, de boca aberta, de varal aberto, de tenda aberta.

 

original

 

 

Navego barcaças de papel em canais de esgoto
seqüestrando damascos vermelhos e damas
para uma casa arranjada em delicadezas e luxo.
E vai o esgoto prodigalizado escorrendo na quietação da vila
com minhas luminárias apagadas.

Meu couraçado holandês é amigo de um moinho
onde outrora brincavam meninos e passarinhos disputando milhos.
Vai navegando junto com o cheiro de bofe cozido no feijão ao tijolo
porque hoje, as portas envidraçadas das estrelas estão abertas
e a minha boca está aberta como tenda árabe,
como foguete de lágrimas,
feito varal colorido de roupas e nuvens.

Meu barco é feito de um papel onde há contas matemáticas
e heresias de geografia; onde há espaços carismáticos
habitados por um céu de auroras e fome verminal.
Vai sorumbático singrando as castas de água
que se adensam no fundo.
A tinta do canal fusco no bairro
vai batendo-se ao sol, recitando declinações latinas
do Velho Mundo, dizendo adeus aos canos de PVC
de onde escorre uma estreita tira de água com arroz
e dejetos entornando vultos.

Hoje resolvi abrir minha boca abominada de sereno.
Escolhi subir e me precipitar de escarpados.
Decidi alisar as almas dos homens, das mulheres e das crianças
acompanhando um barquinho que choraminga.
no luto pesado das águas.

Vai, meu barco, dissipando lupanares e botequins.
Vai, instigando obesidades, ouvindo estórias
de furtos e seqüestros bestiais.

Vou seguindo teu passeio lúgubre
sonhando loureirais e mirtos,
mãos transparentes escavando imagens
a machado nesta paisagem de canal aberto,
de boca aberta, de varal aberto, de tenda aberta.
Contigo, hoje, seguirei atroando anestésicos
de taberna e cantarei todos os hinos das capelas.

 

 

 

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Bispo Filho

Bispo Filho é poeta de Governador Valadares, Minas Gerais, onde fez parte do Movimento Poético e ajudou a editar o folhetim “Varal” e o jornal “Poetarte”. Escreveu os livros “Colosso Ciclone” e “Meninos de São Raimundo”, com Roberto Lima. É professor, músico e artista plástico. Edita o blog “Fumegação”.