AGORA QUE VIRGINIA É MORTA

Fernando CamposBy Fernando Campos 6 meses agoNo Comments
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Em meu boné industriado,

velho de guerra,

já não se desenha

sobre o pequeno escudo

o nobre leopardo – o sublime,

em fios de ouro,  o emblemático,

o quase vitoriano.

 

Meu boné se esfacela em chistes,

disparates; nele, o embuste, o ricochete,

a cabeça sopesando os dias,

o desconcerto só pensando as horas.

 

Virginia Woolf, trazida ao presente

por um fio de memória, acende um cigarro

e se acomoda numa cadeira, perto da janela,

para escutar os versos de um pássaro-lira

cujas feições lembram as de T. S. Eliot

– um êxtase de penas e de frases vivas.

 

Cheiro de açafrão, alecrim, fumaça,

meus temperos se dissolvem nesta lembrança

e nos objetos da casa.

 

Meus prazeres, fantasmas e dores,

Virginia sempre soube.

Ela, sim, era realista – mesmo

em seus maiores tormentos.

 

Eu troco alhos por bugalhos.

 

 

 

 

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Fernando Campos
Sobre

 Fernando Campos

  (17 poemas no Verso Aberto)

Fernando Campos é poeta mineiro de Bom Jesus do Galho e reside na vizinha cidade de Caratinga, desde 1984. É formado em Letras pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Caratinga – FAFIC, onde também fez seu curso de pós-graduação em Língua Portuguesa. É casado, pai de dois filhos, e leciona na rede pública estadual, tendo trabalhado também em várias instituições de ensino particulares. É autor do livro “Insolvência – fragmentos de amor e morte e um esboço de despedida” (2015, Ed. Caratinga), entre outras obras ainda inéditas.